quinta-feira, 26 de abril de 2007

Tinha uma costela no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma costela.

Meu caro Fabrício. Hoje faz uma semana que estou na China e por isso Deus – que pode ser um cara bem bacana quando acorda de bom humor – resolveu dar-me um presente: a costela da Manchúria. Minha vida pode ser dividida entre antes e depois desse jantar.

Fabrício, liga já pra Santo Anastácio e chama seu pai. Não importa que sejam três e meia da manhã e ele atenda de pijama e assustado: Paulinho Corsaletti precisa saber que a costela dele acaba de cair para segundo lugar no ranking mundial. Os caras da Machúria, meu amigo, acabam de desbancar o Oeste Paulista.

Eu sei que a costela do Paulinho leva onze horas para ficar pronta, mas a da Manchúria levou cinco mil anos. E o tempo de preparo da costela-- foi seu pai mesmo quem me ensinou -- é que faz toda a diferença.

Quando o primeiro faraó mandou construir a primeira pirâmide, ordenou que colocassem a costela pra assar. Morreu no dia em que a primeira gota de gordura pingou na brasa, com a sensação de missão cumprida.

Quando Moisés fugiu do Egito, muitos séculos depois, alguém perguntou: será que a gente desce a costela para a grelha? “Não!”, disse o faraó (tataraneto daquele que iniciou o churrasco), “ainda leva tempo” -- e mandou jogarem o herege no Nilo, amarrado ao nariz da Esfinge. (Dali em diante, sempre que um súdito olhava aquela estátua mutilada, lembrava do respeito que deveria ter pela costela primordial).

Quando Jesus Cristo foi crucificado, os legionários romanos que cuidavam do churrasco deram uma olhada e pensaram em fatiá-la para acelerar o processo. Deus irou-se. Jesus ainda tentou defendê-los: “perdoai-vos, Pai, eles não sabem o que fazem”, mas Ele não quis nem saber: mandou fogo e enxofre dos céus e fez com os fariseus o que eles queriam fazer com a costela: torrou.

Os templários (organização a quem equivocadamente se atribuiu a tarefa de procurar o Santo Graal ou proteger o descendente de Cristo, mas cuja única função era zelar pela correta concretização do preparo da costela) foram os responsáveis por levar a carne para a Manchúria, a fim de afastá-la das invasões árabes que estavam na Europa unicamente para tentar roubar vocês sabem bem o que.

Foi Leonardo da Vinci, o gênio, quem soube o ponto de descer a peça e aumentar o fogo, para que, nos próximos séculos, ela criasse uma casca crocante por fora, sem perder a maciez quase cremosa de dentro. Chegou à conclusão do dia e hora exatos após complexos cálculos astrológicos e astronômicos, tendo consultado alfarrábios babilônicos, persas e hebraicos -- em especial um pergaminho de Paracelso de nome Da costelae preparatum.

No século XX, os japoneses invadiram a Manchúria, mas soldados de Mao Tsé Tung e do Kuomintang, lutando lado a lado, conseguiram proteger a iguaria. O homem chegou à lua, caiu o muro de Berlim, clonaram uma ovelha, Clodovil foi eleito deputado federal e outras coisas incríveis aconteceram, mas de todas elas, a mais fantástica foi: ficou pronta a costela da Manchúria. (Semana passada, um beócio de Presidente Prudente, infiltrado na China pelo Tinhoso com o único propósito de estragar a costela, ainda falou, para o sábio chinês, de 114 anos, que terminava o cozimento de acordo com escritos de Confúcio: “vamos jogar uma cerveja em cima, pra amaciar?” O sábio cutucou a têmpora do prudentino imprudente com seu palito e fez com que ele imediatamente caísse fulminado).

Às sete e meia da noite do dia vinte e seis de abril do ano da graça de 2007, faltava apenas meia hora para o momento culminante desse processo civilizatório de 5 mil anos. Mas eu ainda não sabia de nada, sentado no banco de madeira, folheando o cardápio, ao escolher a até então desconhecida “costela da Manchúria”.

Eu quis a costela por sua concretude. Estava cansado de misturas, confusões, molhos e recheios difusos. Disso a minha vida aqui já está cheia, é só olhar pro lado, para cima ou para baixo, para fora e para dentro: estou no meio de uma wok existencial, de um yaquissoba cultural, não sei o que é porco, o que é obrigado, o que é frango, o que é gafe, o que é amor verdadeiro ou Rolex falsificado. A costela – pensei --, a costela será uma âncora de solidez simbólica nessa sopa de ideogramas, uma bóia de contornos claros nesse picadinho de sentimentos. E foi aí que a pedi, colocando o dedo indicador sobre a foto, em silêncio, como o momento – solene, agora sei – merece.

Não vou descrevê-la para não poluir a divindade da experiência com nossa vaga, humana e imperfeita linguagem. Só o que digo, Fabrício, é o seguinte. Liga pro seu pai já e explica direitinho isso tudo aqui que eu tô falando. Manda ele avisar o Buinha. Chama o Frango e o Franguinho, o Caio, o Conrado, o Camilo, o Gustavo e o tio Wilson. O Chico e o Paulo e quem mais quiser. Vamos organizar uma expedição urgente para a China. Todos têm que provar a costela da Manchúria. Só isso importa nesse momento.

Pára! Não faça essa cara de “como você é engraçado, Antonio...” Eu tô falando sério. A cidade está cheia de gente que viajou quase 30 hora por motivos tão fúteis como assinar contratos para a fabricação de telefones celulares, discutir detalhes da venda de shoyu para a Bélgica, negociar preços para compra de saltos de sapatos com Nova Hamburgo. Provar a costela da Manchúria, de todas as coisas da vida, é a mais importante. Diga que venham apenas os homens. Costela é coisa viril. Soninha, Leca, Belle, Mari e as outras hão de entender. Eu reservo hotel. Vendam os carros se preciso for. Tragam pandeiro, timba e vioão, que a gente vai cantar marchinhas de carnaval por toda a noite em Yuyuan garden, depois da costela, que nem copa do mundo. Mas acima de tudo, impreterivelmente, por tudo o que é mais sagrado, Fabrício, venham imediatamente. Parece que não eram muitas as peças que o faraó pôs na brasa. Outra fornada, só em 7007.

Eles são todos chineses! Todos! Para todo lado que eu olho, chineses, falando chinês, pensando chinês, comendo em chinês. Isso não deixa de me assombrar.

Abaixo a dentadura

Fui tirar uma dúvida sobre olmos e sequóias na Wikipédia e o site não entrou. Achei que tinha dado pau, tentei de novo, nada. Uma hora a ditadura tinha que dar as caras: Wikipédia is not welcome na República Popular da China.

Heavy Metal em Tongji

Quando eu vi, tava tocando heavy metal com Shu Xin -- ou Mister Hotness, como Virgínia e De la Rosa, as duas mexicanas apaixonadas, chamam o galã chinês de braços tatuados, cabelo na cintura e calça jeans justa e rasgada. Ele na guitarra, eu na bateria. Fazíamos uma dupla estranha. “Onde vamos parar com toda essa abertura?”, pareciam dizer os olhos esbugalhados dos velhinhos e velhinhas que passavam pela calçada e metiam a cabeça dentro da lojinha, quase uma garagem, no extremo norte de Xangai.

Quando cruzei a cidade do sul até o norte, pela manhã, não imaginava que iria acabar tocando bateria com um heavy metal simpático apelidado Mister Hotness. Fui até a universidade de Tongji, onde minha amiga Renata está estudando chinês. Lugar lind;issimo. Prédios centenários se misturam com construções modernas, em meio a chorões deslumbrantes, carvalhos e outras dessas árvores elegantes de clima temperado que devem ter nomes como olmos ou choupos ou sequóias... Flores por todo lado.

Uma enorme estátua de Mao, na entrada, acena para ninguém. Os jovens que passam de braços dados ou sós estão mais concentrados em seus I-pods do que naquela enorme mão de pedra que, até outro dia, apontava os rumos da nação. A deslumbrante primavera de Xangai só torna mais obsoleta a estátua do homem que, há pouco mais de quarenta anos, ordenou a jovens como aqueles, em universidades como aquela, que arrancassem as flores dos vasos – supérfluas à revolução do proletariado – e a grama do chão – planta burguesa, símbolo da dominação inglesa.

Cruzamos o campus e encontramos as duas mexicanas num restaurante muçulmano chinês. Quando entramos ali eu disse: Renata, se eu mostro a foto do restaurante pro seu pai ele vai te mandar mais dinheiro no fim do mês só para garantir que você coma num lugar melhorzinho. As moças me disseram que podia confiar. (Só não devia, em hipótese alguma, ir ao banheiro, porque a experiência seria traumática). E foi ali, enquanto comíamos um macarrão com carne de cabrito e coentro e outro com frango e pimentão, deliciosos, que elas começaram a falar de Mister Hotness, quase babando.

Shu Xin é um personagem de Nick Hornby, na versão chinesa de Alta Fidelidade. Passa o dia na loja de guitarras, sozinho, tocando e maldizendo o povo de Xangai que, em sua visão, só pensa em dinheiro e não entende nada de rock’n roll. De umas semanas para ca, no entanto, sua solidão é interrompida todo dia na hora do almoço pelas duas mexicanas que vão lá, conversar e sonhar com cenas de uma novela sino-mexicana. A conversa é difícil porque ele sabe muito pouco inglês. Segundo elas, apenas algumas frases aprendidas em filmes pornôs como “my dick is big and strong!” “let me see those horny boobies, baby” e outras sentenças que não se aprende no CCAA. Elas não se importam. Ficam ali a tarde toda, entre guitarras, noodles e suspiros.

Depois do almoço, fomos até a lojinha. Uma bateria velha fica bem no meio do espaço de uns quatro metros quadrados. Perguntei se podia tocar. Ele disse que só depois das duas da tarde, regras do condomínio. Passeei pela universidade e voltei lá pelas três. As mexicanas já haviam ido embora, Renata estava estudando para a prova. Cheguei meio tímido, disse Ni Hau (olá), fiz uma mímica de “eu na bateria e você na guitarra, cara!”, ele acenou com a cabeça e começamos.

Se eu fosse um pouquinho melhor poderia aplicar aquele chavão de que conversamos na linguagem universal da música, mas não toco desde a adolescência (quando eu já era ruim), de modo que minha habilidade no esperanto musical é quase tão sofrível quanto meu mandarim. Sei é que fui feliz. Tocamos por uma meia hora -- prova de que a censura chinesa não é assim tão rigorosa. No fim ele deu o cartão, eu dei meu msn e agradeci do fundo do coração (vocês não sabem como gosto de tocar, mesmo mal, bateria). Ele foi simpático como todos os chineses. “No thanks! No thanks! Come back, you want, come back, we play”. Quis retribuir de alguma forma. Quase falei pra ele, ô, Shu Xin, essas mexicanas aí, tem jogo, viu? Pode apostar, elas tão na sua... Já pensou, as duas juntas, você aplicando todo o inglês que aprendeu nas suas tele-aulas? Achei, no entanto, que Virgínia e De la Rosa, como duas boas latinas, devem saber a hora de partir pro ataque.

O que não é a globalização, não?

Miojo que passarinho não come

Além de Mao, Shirley, Helen e Caxambu, tenho outra amiga na China, de quem ainda não falei: Renata Sung. (Já dá para fazer um time de futsal com minha turma). Filha de mãe chinesa e pai brasileiro, Renata veio estudar mandarim aqui por um ano. Foi ela quem me levou para ver os sapos e enguias no Carrefour, me ajudou a comprar uma câmera fotográfica (dura na queda na arte da pechincha) e, ontem, me apresentou ao corredor de miojos do supermercado. Como ela diz: irado! Melhor ainda, ela me passou a técnica de sobrevivência na China: você esquenta água na garrafa térmica elétrica usada para o chá (tem uma aqui no quarto, em cima do frigobar) e a despeja no pote de miojo, no melhor estilo Macgiver na cozinha. Comprei logo uns cinco potes coloridos.

Ontem fiz meu primeiro miojo. Você saca logo a sofisticação do produto: eles não têm apenas um saquinho com aquele pó radioativo, mas três: um com o pó, outro com temperos e uns floquinhos de algo que intuo ser carne desidratada e outro com uma espécie de gel laranja. Acho que o último era pimenta – ou urânio enriquecido?

Renata bem que me avisou: “esses que têm uma malagueta desenhada são muito fortes, viu?” Não dei ouvidos. Quase morri. Fiquei na varanda, com a boca aberta no trigésimo andar, esperando que o vento vindo da Sibéria acalmasse minhas judiadas papilas. Tudo bem. Como dizia Nietzsche, o que não me mata me fortalece. Ou, como dizia tia Corália, o que não mata engorda.

Pantufas

Minha amiga Bia pediu para eu falar mais sobre pantufas. Não sei muita coisa, só sei que não se entra calçado em casa. Você deixa o sapato ao lado da porta e eles te dão umas pantufas. Na casa do Mao tem um armário ao lado da entrada, onde eles guardam umas sobressalentes, embaladas em plástico e tudo. Não sei se depois eles jogam fora ou embalam de novo.

Aqui no hotel é a mesma coisa. O funcionário veio trazer um travesseiro, deixou o sapato no hall e entrou de meia. Será que eu deveria ter pantufas para oferecer a ele? Vou perguntar pro Mao.

Cócoras

A leitora Nana caçoa da minha incapacidade de acocoração e sugere que eu faça yoga ou pilates. Cara Nana, em primeiro lugar, queria dizer que sou bastante alongado (para um homem). Em segundo: não é qualquer cócoras essa praticada por aqui. Trata-se de toda uma técnica milenar, que exige não só alongamento, mas equilíbrio e, acredito até, paz de espírito. Acho que sou capaz de aprender a cerimônia do chá inteira antes de me agachar como eles sem cair de bunda.

Slim Ling Ling

Os chineses são todos magros. Comem esse monte de carne e macarrão e têm esses físicos de Bruce Lee, lépidos e fagueiros. Qual será o segredo? Até agora, vi uma única chinesa gorda. Tentei pegar a câmera, correndo, para filmar, mas ela também era lépida e fagueira, apesar do sobrepeso, e sumiu na multidão. Seria coreana?

Na photo

Ontem fui subir numa torre enorme que tem em Pudong, para ver a cidade lá de cima. Na base da torre, passei atrás de um chinês que posava para uma foto e clic, percebi que tinha ido parar dentro da câmera de seu amigo. Fiquei com uma sensação estranha e imediatamente me solidarizei com esse pessoal que não se deixa fotografar porque diz que a câmera rouba a alma.

Fiquei imaginando minha imagem ali, transformada em megapixels, no bolso do chinês. Milhares ou milhões de zeros e uns colocados lado a lado que formam meu nariz, minha orelha, meus olhos, a perna direita levantada, a perna esquerda apoiada... Aí fiquei me imaginando indo no bolso do chinês para uma cidadezinha perdida no interior da China. A família do cara olhando a foto, me vendo ali atrás -- o gringo no fundo da foto --, figurante desconhecido, ignorado, sem nenhuma importância. E vai que o cara imprime a foto, vou ficar guardado no fundo de uma gaveta numa cidadezinha no interior da China, amarelando (foto digital também amarela?), até o dia, quem sabe, que ele faça uma limpeza, ou morra, e os filhos joguem a foto no lixo, e eu, o chinês que posava e o maior prédio de Xangai vamos parar num forno, ou num aterro. Cruz credo.

Depois de subir na torre fui a um museu que contava a história da cidade, mas não prestei atenção em muita coisa: só conseguia reparar nas pessoas das fotos antigas, para sempre presas ali dentro, com seus cachimbos, cartolas, bigodes e almas amarelando diante da visitação pública. Todos mortos, que nem eu, um dia, na foto do chinês.

Contrapeso

Deito e durmo, exausto, antes da meia-noite. Nunca foi tão fácil pegar no sono. Desde que cheguei, acho, sonho com a casa da minha infância. Às vezes ela tem a mobília do meu apartamento atual, às vezes está fechada há muitos anos e eu dou uma volta pelos cômodos, lembrando de cada coisa. É um pouco triste, eu percebo que aquilo não me pertence mais, sinto que estou num lugar que acabou, mas é intenso e talvez bom. Também tenho visto rostos doces de mulheres que amei em tempos idos – true love, Helen e Shirley, I know. Só o rosto, o sorriso, essa capacidade que a mulher amada tem de ninar nossas angústias. (Ê, Edipão brabo!). É o pessoal das coxias dando uma força, calçando a mesa bamba do estrangeiro com algo de familiar.

-- Atenção atenção, inconsciente?, Superego falando, copia?

-- Inconsciente na escuta, QAP.

--Negócio é o seguinte, o cara tá na China, perdidaço, vê aí no baú imagens from the heart que que tem de bom pra gente dar uma base pro garoto, QSL?

-- Positivo. Gol do Corinthians? Sonho erótico? Vôo?

-- Negativo, precisa pegar pesado, fala pros estagiários irem nas pastas Infância e Amor e fazerem uma pesquisa boa.

-- Positivo. Uma e meia tá aí.

-- Negativo, o cara tá dormindo cedo, onze e meia tem que tá aqui senão vai começar o REM e a gente vai ter que passar material antigo. E se só tiver a fita “Pelado na escola” vai dar uma desestabilizada legal.

-- Onze e meia fica difícil, Super, tem muito material recalcado e cê sabe como é que é a burocracia pra liberar.

-- Diz que eu mandei passar, traz aqui que eu carimbo.

--Beleza. Câmbio.

-- Câmbio.

Eu estou na China nas melhores condições possíveis, não queria estar agora em nenhum outro lugar da Terra, mas ser estrangeiro traz sempre alguma dor. Não falo daquele medinho de fazer as esperadas cagadas inevitáveis, como entrar pela porta errada do ônibus, meter o cartão do metrô de cabeça pra baixo, embolar o pessoal na catraca e levar um esporro em mandarim. Falo dessa tristeza de estar longe de todo mundo que a gente ama, das pessoas que sabem quem a gente é. (Nos poucos momentos em que estou no hotel fico olhando os bonequinhos vermelhos do messenger e torcendo para que algum fique verde, mas com 11 horas de fuso, só dá desencontro).

Lembro que quando era mais novo não entendia alguém ser condenado ao ostracismo. Achava que me sairia numa boa, viajando por aí. Talvez porque quando somos muito jovens ainda não percebemos que a única coisa que importa são as pessoas que a gente ama. E o trabalho, claro, mas trabalho faz-se em qualquer lugar. Até no trigésimo andar de um quarto de hotel na China, enquanto nenhum fucking bonequinho muda de cor.

(Imagina só que terríveis os sonhos dos exilados com a Terra natal?).