De novo?!
(Publicado no Guia do Estadão)
Todo ano é assim. Numa certa época, percebo um zumbido estranho, um incômodo indefinido, um leve formigamento estomacal. Abro então o jornal e me dou conta: é a Mostra Internacional de Cinema que voltou para me atormentar.
Durante duas semanas, além da dor nas costas, da situação pífia do Corinthians, das contas a pagar, da barriga que cresce e da vida que encurta, da alopécia e da triste eleição para presidente, ainda tenho que arrastar essa sensação perene de que, a todo momento, estou deixando de assistir algum filme importantíssimo.
Vou almoçar: pronto! Perdi a mais nova revelação do cinema Búlgaro. Marquei dentista? Burro! Bem na hora do documentário definitivo sobre o nazismo! Só enquanto digito essas lamúrias, por exemplo, estou perdendo um documentário israelense, um filme italiano e um mexicano transcorrem sem mim, a chance única de ver Niemeyer falando de seus projetos se vai.
Como vou fazer por aí, quando disserem “o cinema malaio tem evoluído muito, não?”. Que posição tomarei se bateram na mesa e decretarem: “Altman já era!”? Se me perguntarem “Você curte Iñarritu?”, é capaz que eu responda: “frito ou ensopado?”.
Eu já não dou conta de um décimo da programação normal de São Paulo. Como é possível ver o Leon Ferrari na Pinacoteca, ir às peças que os Parlapatões estão encenando todos os dias em sua nova sede, assistir o show do Edgar Scandurra no SESC Carmo, percorrer toda a Bienal de artes e ainda ganhar a vida, namorar e escovar os dentes?
Se fosse rico, contratava uma secretária. Dizia assim: “Dona Mirtes, aí estão as noventa e seis coisas que quero fazer essa semana. Coloca no Excel, faz umas tabelas, dá um jeito, por favor!”. Aliás, a Mostra podia criar um programa de computador. Você escreveria lá os seus horários de trabalho, área de circulação, atividades e preferências e ele bolaria alguns itinerários possíveis para as duas semanas.
Mesmo com uma eficiente Dona Mirtes e um moderníssimo Cinefiles 1.0 (copyright, por favor), o problema não estaria resolvido. Cada filme escolhido resulta em três ou quatro perdidos. A única coisa que me consola é que, em alguns dias, a mostra acaba. Só então poderei respirar aliviado, fazer palavras cruzadas ou tomar um pingado na padaria sem a angustiante sensação de estar perdendo alguma coisa incrível. Todo ano é assim.
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