sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Ai meu Deus!

(publicado na Capricho)

Michaella, você não me conhece, sou amigo da sua irmã, a Jô. Na verdade, você não se chama Michaella e nem a sua irmã, Jô. É que eu quis escrever uma coluna especialmente para você, mas achei que seria muito invasivo. Assim, troquei os nomes, para ninguém ficar sabendo. (Só você, sua irmã e eu, que até o final do texto responderei – caso me chamem – pelo nome de Joaquim, para também entrar na dança).

A Jô voltou ontem da sua cidade e disse que você está apaixonada pela primeira vez na vida. Que você está desesperada, não sabe o que fazer, nunca falou com o cara ao vivo mas, quando ele aparece no ICQ, sente as pernas bambas, dor no estômago e esquece subitamente o português. Pensei em escrever algo que te acalmasse, que te ajudasse. Gostaria de dizer: fica tranqüila, Michaella, é assim só da primeira vez. Depois passa. Mais tarde você saberá exatamente o que fazer diante do cara, o que falar, como seduzi-lo. Não haverá mistério, não haverá nervoso, não haverá pernas bambas nem palpitações, vontade de sair correndo ou 24 horas de arrependimento por ter dito aquela frase e não outra mais perfeita.

Infelizmente, logo vi que não tinha jeito. Aos 13, aos 31 e aos 113, apaixonar-se é isso aí que você está vendo. (Ou que não está vendo, pois algumas paixões intensas causam cegueira, mudez, gagueira e surdez). Você não sabe o que falar pro cara no ICQ? Tem medo que ele te ache boba, imatura, desinteressante? Pois a Jô, eu, a Xuxa e o rei da Espanha, aposto, nos sentimos igualzinho.

Tem coisas que, com alguma sorte e boa vontade, a gente aprende na vida. A dizer não, a dizer sim, a fazer arroz, feijão e as pazes com amigos. Aprende também a mandar uns folgados plantar batatas, aprende que a capital da Suécia é Estocolmo, que a estrada para o Rio é a Dutra e para Ubatuba é a Ayrton Senna. Mas o que fazer quando a gente ama muito uma pessoa, como falar “oi, tudo bem, e aí, beleza?”, sem achar que está babando ou tremendo ou falando coisas desconexas como “mostarda bla bla bla Comandatuba tiros flops?”, isso a gente morre sem saber.

Bom, pensa você, se não tem nada para acrescentar, Joaquim, por que escreveu essa coluna? Talvez porque, sabendo que isso acontece com todo mundo, você fique mais tranqüila. (Mais ou menos como quando a professora diz que quem não levar o livro de biologia não poderá entrar na classe amanhã, aí você esquece o livro, fica desesperada e só se acalma quando descobre que um monte de gente também não levou. Por que acalma? Estar ferrada em grupo é melhor do que estar ferrada sozinha? Acho que sim.) É isso, Michaella. Você está ferrada. Estamos todos ferrados. Parabéns. Não existe nada melhor na vida. Nem mais difícil. Bem vinda.

Nenhum comentário: