sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Nós na fita

(crônica para o Guia do Estadão)

O adesivo na kombi à frente dizia: “Não multa! Nóis tamu na luta!”. Ultrapassei a bendita, coloquei a cabeça pra fora e gritei, a plenos pulmões: “mensalão! Mensalão!” O motorista me olhou perplexo, acelerou e sumiu -- não sem antes, por via das dúvidas, mandar lembranças à minha mãe. Não foi o primeiro patrício a estranhar minhas atitudes.

A coisa começou depois que Bob Jeff, ignorando a sábia lei que rege toda falcatrua – a saber, Vaca Amarela --, botou a boca no trombone (e, logo, na panela). De lá pra cá virei uma CPI de um homem só, Taxi Driver do gogó: enfim, um chato a gritar aos quatro ventos nossos mensalões cotidianos. Logo que começou o escândalo, os jornais especulavam que mensalão podia ser mais amplo do que parecia. Gargalhadas. O mensalão está no pão nosso de cada dia, minha senhora!

O que era o adesivo da kombi senão mais um exemplo desse respeitadíssimo consenso nacional de que, se é para o nosso bem, a lei pode ser burlada? “Tamu na luta” significa: sou um cara legal, meus propósitos são bons: logo, posso passar no sinal vermelho, parar em cima da calçada e dirigir pelo acostamento sem ser multado.

Vou ao espaço Unibancool de Cinema. Aquele pessoal de aros grossos e fina estampa chega, olha a fila e vai logo pra frente, ver se conhece alguém e consegue um pequeno favorecimento na concorrência. “Mensalão! Mensalão!” (Diante dos meus gritos, umas garotas de cabelo verde acham que é performance e aplaudem. O resto só me olha com o mesmo susto do motorista e vira seus All Stars pro outro lado).

Quantas pessoas eu não conheço, filhas da fina flor de nossas elites, que compraram suas cartas de motorista? “Mensalão! Mensalão!” E aqueles que têm TV à cabo pirata e ainda se defendem com um discursinho anti-capitalista de quinta, Robin Hoods dos jardins? Perto de São Paulo há cidadezinhas de quinze mil habitantes com mais empresas do que o Vale do Silício, todas paulistas, ali sediadas pra pagar menos impostos. Pagar multa, jamais: suborne o guarda. Fila dupla? Só um segundinho, enquanto eu vou pegar o meu filho ali na escola.

Quando Bob Jeff mandou a Vaca Amarela pastar, Lula disse que ia investigar as denúncias seriamente e que, se necessário, “cortaria da própria carne”. Na hora eu imaginei uma fila com todos os brasileiros, mergulhando igual o Tio Patinhas dentro de um enorme moedor de açougue. O que me tranqüiliza é que conheço muita gente e sempre conseguiria encontrar alguém na fila lá pra trás. Eu e meus amigos de aros grossos e fina estampa pularíamos por último. Mas pularíamos.

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