sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Quem pinta?

(crônica para o Guia do Estadão)

Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares e o único resquício de nossa civilização for a porta de um banheiro público, os arqueólogos do futuro chegarão a conclusão de que éramos uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis.

A leitora, pertencente a metade mais ilustrada da humanidade, talvez não saiba, mas todos os banheiros masculinos do país, do boteco sórdido ao aeroporto internacional, têm rabiscados em suas portas -- além de escudos de times e piadas infames -- pintos de todas as cores e tamanhos.

Eu entendo os motivos estúpidos que levam o torcedor fanático a escrever “Timão eô!” na parede do banheiro. Compreendo o impulso que encoraja o sujeito reprimido a sacar sua caneta e deixar nas paredes do WC apreciações pouco elogiosas sobre o presidente da república ou o chefe da firma. Mais do que tudo, olho com ternura para o pobre diabo que, tendo como cúmplice apenas um vaso sanitário, aproveita para declarar seus sentimentos mais profundos: “Waleska te amo, ass. Anderson do RH”. Essa obsessão peniana, no entanto, me é incompreensível.

Fico imaginando o pai de família sentar-se na privada e, protegido pelo anonimato de fórmica e azulejos, tirar a caneta do bolso. O coração acelera, pequenas gotas de suor surgem na testa e, com a alegria ardente das pequenas transgressões, o trabalhador honesto, bom marido e rotariano respeitado desenha o aparelho genital masculino, cheio de detalhes, na porta do banheiro.

Será que ao deitar a cabeça no travesseiro e revisar o dia, o cidadão se arrepende de seus arroubos urolográficos? No fim do ano, quando pula ondas, come lentilhas e pensa no futuro, o vândalo sanitário pede ajuda aos deuses para deixar o vício? Ou, pelo contrário, não tem nenhuma vergonha de seus atos? Todo sábado, junta-se a seus confrades num boteco e, entre cervejas e amendoins, bate no peito: “Cês tem que ver o que eu fiz lá no Belas Artes! Da maçaneta até o chão! Azul e verde, uma beleza!”. Ao que outro sugere, tirando da pasta um estojo de canetas coloridas: “Vamos pra Osasco no domingo? Parece que abriu um shopping novo...”.

Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares, espero que não sobre uma única porta de banheiro para contar a história. Afinal, não gostaria de ser visto pelos arqueólogos do futuro como parte de uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis. Muito embora, pensando bem, a descrição até faça sentido.

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