quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Água de coco

(publicado na Capricho)

Quando fui ver, já tinha ficado amigo do coqueiro. Claro que não foi assim, de uma hora pra outra. Leva tempo até a gente se apegar realmente a um vegetal: eles não são muito expansivos, não falam nada e não dão sinais evidentes de afeto. Mas se você prestar bastante atenção, verá que uma boa amizade pode ser cultivada. Literalmente.

O coqueiro fica no jardim da casa que, recentemente, comprei em Ubatuba. Confesso que, nas primeiras vezes que fui pra lá, nem dei muita bola para ele. Da última vez, no entanto...

Era fim de tarde e eu estava cansado do dia de praia. Sentei na varanda, estiquei as pernas em cima de um murinho, olhei o sol se pondo, o céu vermelho, o mar dourado e, diante desse cenário de calendário de despachante eu já estava quase me convencendo de que a vida era boa e tudo ia dar certo no final. Mas eis que minha atenção foi desviada pelo tal coqueiro.

Você deve saber que bastam algumas horas na praia para as coisas irem mudando dentro da gente. Vamos ficando mais calmos, contemplativos, os pensamentos vão se tornando profundos e leves, cadenciados pelo barulho das havaianas batendo no calcanhar, das ondas batendo na praia... A gente fica num meditar tranqüilo como o balanço da rede... (E com vontade de acabar todas as frases com reticências...). Foi nesse espírito que olhei o jardim e, quando dei por mim, já tinha pensado: esse coqueiro é gente fina. É uma árvore desengonçada, magrela, reta e com aquela cabeleira toda desarrumada, lá no alto, que nem o Louco da turma da Mônica. Deve ser um piadista. Um desses caras altos e meio tímidos, mas com um humor afiado. E, cada vez mais empolgado por esse clima hippie-praiano (deve ser a maresia), comecei a pensar: pô, ele é um ser vivo, eu também. Ambos temos que nos alimentar, beber água e respirar. Ambos nascemos e ambos morreremos. Aconteceu de eu ser gente e de ele ser coqueiro, a evolução o levou a fazer cocos e eu a fazer histórias, mas num passado longínquo éramos o mesmo microorganismo.

No terceiro dia na praia eu já estava até pensando em abraçar o coqueiro e chamá-lo de meu irmão, mas tive que voltar a São Paulo. Ainda bem. Não sou do tipo que abraça árvores. Não ainda.

Hoje à tarde, num dia frio e cinza, senti saudades. Querendo saber mais sobre o assunto, liguei para a Paula, minha amiga bióloga. Tirei-a das profundezas obscuras de seu mestrado e perguntei: Paula, diz aí tudo o que você sabe sobre coqueiros. Durante alguns minutos escutei coisas fabulosas. Por exemplo: na África morrem mais pessoas atingidas por cocos que caem da árvore do que em acidentes aéreos; a carne do coco chama-se endocarpo e, o mais esdrúxulo; a água que a gente bebe é o endosperma. Nesse momento, pedi para ela parar. Era mais informação do que eu precisava. Endosperma? Que coisa é essa? Mudei de assunto, mandei beijos para a família e desliguei. Há coisas que a gente não precisa saber sobre os amigos.

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