Kichute
(publicado no guia do Estadão)
Na escala hierárquica dos sentimentos, a nostalgia não ocupa uma das posições mais privilegiadas. Talvez porque seja uma emoção fácil de usar -- algo assim como um Sazon sentimental -- sob a qual qualquer bife duro do passado torna-se a mais tenra picanha na lembrança do presente.
Embora na culinária eu aplique uma certo rigor metodológico – no churrasco só sal grosso e nem pense em colocar catchupe na pizza! --, quando se trata da vida, da nossa própria história e da maneira como a encaramos, aceito algum artifício no sabor: uma dose de exagero ou uma colher de ficção.
Dito isso, posso afirmar, com algumas pitadas de Sazon: tenho saudades da São Paulo de antigamente. Não me refiro às décadas de 40 ou 50, mas à cidade de quinze, vinte anos atrás. (Uma das peculiaridades de se viver em São Paulo é que a gente pode sentir nostalgia da semana passada. “Você lembra quando íamos namorar naquela praça, numa rua cheia de árvores e casinhas geminadas, onde hoje é um shopping center?”, digo à minha namorada. “Claro que sim, Antonio, foi em outubro, não?”).
Nesse passado próximo, em algum momento entre a semana passada e a década de oitenta, muita coisa era diferente. Os orelhões eram cor de laranja e os táxis não eram necessariamente brancos. Havia Kichutes pendurados nos fios a cada quarteirão. As bancas eram viradas para a rua, não para a calçada, e só vendiam jornais e revistas, nada de coco gelado, refrigerantes e cervejas. Pelos muros havia uma única e enigmática pixação: Juneca Pessoinha. (Acho que foram essas as primeiras palavras que li na vida). Os pontos de ônibus eram rústicas estacas de madeira, pintadas em dois tons. Os supermercados abriam de manhã e fechavam à noite. Vinte e quatro horas, só pronto-socorro.
Parece que foi ontem e, quem sabe, foi mesmo. Impossível saber. Numa cidade que parece ter tomado como proposta urbanística o mote do Super-Homem (“para o alto e avante!”), talvez o único consolo possível seja esse sorriso saudoso. E enquanto vão derrubando a paisagem antes que se torne memória, me apego à lembrança de um kichute balançando num fio de telefone. Pode ser um pouco piegas, mas com algumas pitadas de nostalgia, até que fica uma imagem bonita para terminar a crônica, não?
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