quinta-feira, 18 de agosto de 2005

É natal. Socorro.

(texto publicado no guia do Estadão)

Podem me chamar de mal humorado, chato e neurótico. Mas quem é que não fica mal humorado, chato e neurótico ao pegar trânsito às dez e meia da noite porque um shopping center, aproveitando-se do aniversário de dois mil e quatro anos do nascimento de Jesus, resolveu botar um trio elétrico com duentes e fadas em cima, dançando uma versão remix de 'Noite Feliz', no meio da avenida? Pois foi o que me aconteceu um dia desses e, não havendo nada a fazer, restou-me respirar fundo, dizer “é natal” e tentar perdoar a rave dos seres encantados da floresta.

O que me incomoda nesta época não é somente a algazarra publicitária, tentando nos vender paz, panetones, amor, margarina, perdão, presunto, felicidade, Cidra Cereser e compaixão -- à vista, à prazo ou em até três vezes no cartão. O que me irrita é o descompasso entre toda a parafernália natalina do hemisfério norte e nosso cenário de palmeiras, onde canta o sabiá.

Pois chega dezembro, a temperatura sobe, mas as vitrines das lojas e as propagandas começam a mostrar nevascas de isopor, ursos polares, pinheiros, renas e outros produtos exóticos (como que confirmando meus argumentos, o corretor ortográfico do word acaba de grifar nevascas de vermelho, coisa que, embora tenha dado à palavra uma aparência mais natalina, prova que até o termo, nessas latitudes, destoa).

Há uma cena antológica no filme Bye Bye Brasil em que o mágico, interpretado por José Wilker, diz ao povo de uma cidadezinha perdida do Norte do país que vai lhes dar o que os brasileiros mais querem. Comida? Emprego? Saúde? Educação? Não, neve, diz ele, e começam a cair as bolinhas de isopor dentro do circo. Como os delírios dos artistas sempre acabam ficando obsoletos na concorrência com a realidade, imagino que, em alguns anos, chegaremos ao ápice de nosso capitalismo natalino e teremos neve. Claro, não será na cidade toda, mas só em alguns locais privilegiados. Os Jardins, por exemplo. O bairro poderia ser coberto por uma enorme redoma refrigerada, que faria nevar sobre a Oscar Freire e arredores. As moças usariam seus casacos de pele, os esportistas praticariam ski e snowboard na Augusta e alguns bambis, soltos pelas ruas, fariam a alegria da criançada.

Sem dúvida a neve causaria alguns transtornos ao trânsito e àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de adquirir os seus visons, mas isso é apenas um detalhe que poderá ser superado, como sempre, em prol da minoria. E, afinal, gente, pratiquemos a tolerância: é natal!

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