domingo, 22 de abril de 2007

Assembléias gastronômicas

Tirando algumas reuniões do centro acadêmico da PUC, eu nunca tinha estado num lugar onde a comunicação é absolutamente nula. Eu não entendo nada que eles falam e vice-versa. A mímica (essa arte por mim, até três dias atrás, relegada a mera diversão de praia em dia de chuva e para a qual, agora, acendo velas toda manhã), tem seus limites. Consigo bater asas ou imitar um peixe para saber se aquele negócio é frango ou peixe (juro), mas não há gesto na Terra que lembre coca. E, sabe Deus porque, a palavra coca aqui não significa lhufas para eles.

Os restaurantes costumam ter cardápios bilíngues e, muitas vezes, fotos dos pratos. Mas e para saber o que é “frango cantonês”? E para descobrir se vem com algum acompanhamento? E se dá para uma pessoa ou nove? No way, mistel Plata. O jeito é pedil e tolcel.

Acontece que, sempre que acabo de pedir, vejo que o garçom ou a garçonete fazem uma cara estranha. Eu fico na minha, achando que é paranóia. Mas aí o garçom se junta a outro, começam a falar e olhar para mim. Geralmente, nessa hora, o gerente entra na roda. O pessoal de uma mesa também dá uns pitacos na discussão. Eu fico nervoso, achando que pedi algo como purê de batata para seis e uma travessa de chantily diet. (Vai saber o que era aquele prato chamado “Aurora da primavera...”). Depois de algum tempo eles elegem o Celso Amorim do restaurante, o Barão de Rio Branco em horário de almoço, enfim, um emissário que vem até mim tentar explicar os equívocos. Anteontem, após muito esforço, a simpática dona do restaurante conseguiu me fazer entender que a tal lula de Zhonjhou ou sei lá onde era fria. E me sugeriu outra. (Muito boa, por sinal).

Ontem de tarde consegui tirar todos os atendentes do supermercado de suas funções só porque pedi um espetinho de frango. Até o cara que etiquetava os produtos gesticulava, brandindo a máquina etiquetadora, tentando me fazer entender algo que eu, absolutamente, não entendia. Uma mulher com pinta de gerente apontava todos os espetinhos da vitrine e dizia: one one one one one! E eu respondia: sim, moça, one! Quero one!. Só depois de uns dez minutos entendi: eles não vendiam only one, só a porção com seis. Saí de lá transtornado, sem espetinho e com one suco de tomate.

O ser humano mais sensível, diante dessas pequenas derrotas cotidianas, pode ir se fechando para a vida e acabar no McDonald’s. Não é o meu caso, camaradas. Vim aqui com a missão de conhecer a cidade e não arredarei o pé de meus objetivos. Ainda como aquele espetinho, nem que tenha que comprar one one one one one e mais one.


Pequena fábula

Os andaimes de várias obras são de bambu. Impressionante, eles construindo esses prédios modernésimos trepados em estruturas de bambu! Vejam só que imagem mais óbvia para o crescimento chinês: eles crescem 12% ao ano, entre outras coisas, porque a mão de obra é quase de graça. A economia chinesa é o prédio sendo construído. A mão de obra é o frágil andaime de bambu.

(A realidade, às vezes, trabalha com imagens tão pobres. Pobres de nós, escritores, que temos de achar uma maneira original de dizer as coisas).

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