quinta-feira, 26 de abril de 2007

Mais de Shirley e Helen

Água?!
Ainda no restaurante, abandonando a vaca preta (o sorvete tinha derretido e estava mais para burro quando foge), disse a elas que queria uma água. “Água?”, perguntou Helen. Ah, péra lá! Até a Coca-Cola eu entendo o espanto, o país era comunista e tal, mas água?! Qual o problema? “Água gelada?!”, repetiu Helen, como se quisesse ter certeza de que havia ouvido certo. É, uma garrafa d’água. As duas fizeram um não convicto com a cabeça. “Água gelada faz mal para o estômago, você não sabia?!”. Mas, Shirley, o mundo todo bebe água gelada!. Eu já tomei até aqui na China. Pode deixar, não vai ser a água que me causará algum problema nessa vida. Pede, por favor? Elas se olharam e, a contragosto, pediram alguma coisa ao garçom. Em um minuto veio uma xícara de água fervendo. “Espera esfriar um pouco e depois bebe. Água gelada, nunca”, disse Helen, passando por cima do fato de ter ignorado meu pedido e com uma cara de quem acaba de tirar um amigo do fundo do poço das drogas.

Barba
À caminho da casa de chá: “Por que você deixa isso aí?”, perguntou Helen, apontando meu rosto. Isso o que, a barba? “Não sei como chama, isso que você deixa”. Porque eu gosto. Você acha feio? Elas riem. “Não, estrangeiro pode. Mas em chinês é feio.”

Macaco
Os chás são incríveis e uma mulher explica cada um, seus efeitos e a tradição correspondente. Helen me traduz. Tomamos numas xícaras bem pequenas, de uns 50 ml. Em meia hora me preveni contra o câncer, ganhei força, paz, combati dor de dente, ressaca, dor de estômago, ansiedade e até miopia. (A mulher me fez tirar os óculos e colocar o olho dentro da xícara vazia, com o vapor do chá).

Tomamos sete tipos, cada um com sua xícara, seus movimentos, sua história. Deliciosos, grande programa. Com calor, tiro meu casaco. As duas olham meu braço e riem dos meus pêlos. “Você parece um macaco!”, diz Shirley. “De que montanha você vem?”, continua Helen, e riem, riem dos meus pêlos. Aproveitando que as barreiras do comedimento e discrição foram definitivamente derrubadas – pelo menos no que tange à queratina --, Helen pergunta: “seu cabelo é mesmo dessa cor?”. Claro, Helen, porque você acha que eu pintaria? “É muito escuro, quase como o nosso. Estrangeiro é sempre loiro”. Juro, eu não pensava nem de longe que essa viagem ia ser tão doida.

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