Far East
A verdade é que cheguei a Xangai atrasado. Um século. Há cem anos, um missionário escreveu: “se Deus permitir que Xangai perdure, Ele deve desculpas a Sodoma e Gomorra”.
Isso aqui era um verdadeiro faroeste. Ou, com o perdão pelo trocadilho, o far east. Como diz Stella Dong, no livro que comprei aqui esses dias (Shanghai, rise and fall of a decadent city) “Metade ocidental, metade oriental, metade terra, metade água, nem colônia nem totalmente pertencente a China, habitada por gente do mundo todo mas controlada por ninguém. (...) O estranho fruto de uma união forçada entre Ocidente e Oriente, essa princesa híbrida nasce de uma bizarra premissa: o direito de uma nação de meter goela abaixo de outra uma poderosa droga”. Ópio.
Os malvados da história são os Ingleses, chamados então pelos chineses de “os bárbaros ruivos”. Ávidos por negociar com a China, os ingleses mandaram, em 1793, barcos cheios de seus melhores produtos. O imperador Chien Lung deu uma olhada e mandou sua lacônica resposta a George III: “Nós temos todas as coisas. Não vejo nenhum valor nas suas mercadorias, incomparáveis às nossas”. Os ingleses queriam chá e seda. Mas fazer o que, se não tinham nada a oferecer? Não tinham, até que a British East India Company, que monopolizava o comércio com o Oriente, teve a brilhante idéia: ópio.
Trinta anos depois, a droga que estava há tempos banida da china era consumida por doze milhões de pessoas, ou dez por cento da população. Quando o imperador tentou resistir, os comerciantes ingleses convenceram a coroa a dar uma mão. Uma frota fortemente armada atacou Xangai. No dia em que os bárbaros ruivos entraram na cidade, 19 de junho de 1842, os moradores disseram que, “nem um único cachorro em toda a cidade ousou latir”.
A partir daí os ingleses fizeram uma espécie de bolha dentro da China. E logo vieram os franceses, os americanos e muitos outros. Tinham suas próprias leis, suas próprias mansões, adegas, banquetes, concubinas chinesas e, principalmente, aquela ética mui particular que o homem branco criava ao se estabelecer e ganhar dinheiro longe da mamãe e da esposa. Os relatos são pantagruélicos. Os caras faziam fortunas da noite pro dia, importavam cavalos árabes para corridas e cozinheiros franceses para seus clubes. Gastavam, gastavam, gastavam. Bebiam, comiam, se refestelavam. E o dinheiro não parava de jorrar. Quando criticado por um inglês mais consciencioso, um desses aventureiros respondeu: “É meu trabalho fazer fortuna no menor tempo possível. Em dois ou três anos, no máximo, eu espero estar rico e cair fora. E não to nem aí se Xangai inteira desaparecer assim que eu virar as costas, pegar fogo ou for inundada”.
Vai ser irônico se, daqui vinte anos, a China for o país mais poderoso do mundo e Xangai, hoje seu principal centro econômico, a metrópole mais importante do planeta. Por enquanto, só vejo os olhos arregalados dos bárbaros ruivos nos museus, nas praças e diante do mar de enormes prédios modernos. Não estouram mais champanhe pelas ruas, só bebem mansamente suas garrafinhas de água Evian e tiram fotos com suas câmeras chinesas. Aquele missionário -- que Deus o tenha -- deve estar contente.
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